McLaren revela uso de inteligência artificial para identificar blefes de Verstappen e analisar pneus na Fórmula 1

James Bunbury, diretor de parcerias da equipe britânica, explicou como a tecnologia ajuda a McLaren a tomar decisões estratégicas durante as corridas, analisar o desgaste dos pneus e até interpretar as comunicações dos pilotos pelo rádio

A inteligência artificial já é usada nos bastidores da Fórmula 1, e a McLaren encontrou maneiras curiosas de utilizar a tecnologia para ganhar vantagem sobre suas adversárias. Entre as aplicações está a análise do desgaste dos pneus e até a identificação de possíveis blefes dos pilotos durante as corridas. Em entrevista durante um evento da Dell Technologies no Brasil, James Bunbury, diretor de parcerias da McLaren Racing, revelou como a equipe utiliza ferramentas de inteligência artificial para aprimorar suas decisões e citou uma situação envolvendo Max Verstappen.

Uma das declarações mais chamativas de Bunbury foi justamente sobre a possibilidade de identificar quando um piloto está exagerando ou não sendo muito sincero ao reclamar das condições dos pneus pelo rádio.

Max Verstappen diz que seus pneus estão se degradando. Nós fazemos uma rápida análise de como o pneu realmente está na pista, comparando com o que já vimos anteriormente, e podemos chegar à conclusão: não, ele está mentindo”
, explicou o executivo.

A declaração ajuda a dimensionar como a inteligência artificial vem sendo incorporada à rotina das equipes. Em uma categoria na qual cada detalhe pode determinar o resultado de uma corrida, interpretar corretamente as informações transmitidas pelos adversários pode representar uma vantagem estratégica importante.

Bunbury detalhou que a equipe utiliza inteligência artificial para processar milhares de imagens dos pneus ao longo de um fim de semana de Grande Prêmio. Antes da implementação da tecnologia, o trabalho era realizado manualmente por um funcionário, que precisava observar e registrar cada imagem para selecionar aquelas consideradas mais relevantes.

Pegamos mais de 4.500 imagens dos pneus a cada fim de semana. Antes, tínhamos uma única pessoa que analisava e registrava manualmente todas essas imagens. Provavelmente, ela conseguia reduzir esse volume para cerca de 200 imagens, que depois eram utilizadas durante a corrida”
, contou.

Com a inteligência artificial, o processo ganhou agilidade e passou a oferecer informações mais rápidas para os profissionais responsáveis pelas decisões estratégicas.

O executivo também chamou a atenção para a complexidade das comunicações entre pilotos e equipes. Segundo ele, os competidores frequentemente utilizam códigos e mensagens que precisam ser interpretados dentro de um contexto muito específico.

Todos os pilotos estão falando em código durante a corrida. As pessoas dizem que esses caras são atletas, e eles realmente são. O coração bate como o de um velocista, durante uma atividade de duração de maratona. Provavelmente é o único esporte em que, se tira os olhos do que faz, acaba no muro e fora da corrida”
, destacou.

Além da exigência física, os pilotos enfrentam temperaturas extremas dentro dos carros, enquanto precisam responder aos engenheiros e tomar decisões em frações de segundo. Nesse cenário, a inteligência artificial também pode ajudar a interpretar o sentimento por trás das mensagens transmitidas pelo rádio.

Todas as equipes têm seus próprios modelos para analisar as comunicações pelo rádio e entender o sentimento por trás delas. Eles estão dizendo a verdade? Não estão? A utilização da inteligência artificial tem um potencial incrível para fazer a diferença no desempenho”
, afirmou Bunbury.

Inteligência artificial também ajuda a interpretar regulamentos

Outra aplicação apresentada pelo diretor de parcerias da McLaren envolve a interpretação dos regulamentos da Fórmula 1. A equipe desenvolveu um sistema que reúne informações dos regulamentos esportivos, técnicos e financeiros, permitindo que os profissionais consultem rapidamente diferentes questões.

Colocamos todos os regulamentos dentro desse sistema e podemos fazer perguntas imediatamente, recebendo informações naquele momento”
, explicou.

Bunbury fez questão de ressaltar que a tecnologia não substitui os profissionais responsáveis pelas decisões.

Continuamos dependendo do ser humano para tomar as decisões. A inteligência artificial nos permite acessar essas informações mais rapidamente, para que possamos decidir melhor, com mais eficiência e eficácia”
, completou.

Para o executivo, o grande objetivo é utilizar a tecnologia como uma forma de ampliar a capacidade de trabalho da organização, permitindo decisões mais rápidas e fundamentadas.

Como podemos colocar mais força dentro da organização? Como conseguimos tomar decisões mais rápidas e mais bem informadas? É dessa maneira que enxergamos a inteligência artificial”
, resumiu.

McLaren desenvolve um novo componente a cada 17 minutos

A velocidade da evolução tecnológica na Fórmula 1 também foi um dos assuntos abordados durante a conversa. Bunbury explicou que um carro da categoria possui aproximadamente 14,5 mil componentes e que cerca de 80% deles passam por algum tipo de atualização ao longo de uma única temporada.

A fábrica da McLaren funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, durante aproximadamente 330 dias por ano, respeitando os períodos obrigatórios de paralisação da categoria.

Isso equivale a desenvolver uma nova peça a cada 17 minutos. Existe uma frase na Fórmula 1 que diz que, se você tivesse o carro mais rápido no início da temporada e não fizesse absolutamente nada nele, chegaria ao final do campeonato na última posição do grid. É assim que a velocidade da inovação e da competição funciona”
, afirmou.

Para Bunbury, a competitividade é justamente o que impulsiona esse processo de evolução constante.

Precisamos pensar em como podemos ser 1% melhores amanhã e outros 1% melhores no dia seguinte. É isso que impulsiona a inovação e a evolução”
, destacou.

Durante o evento, também foi apresentado o volume de informações produzido pela categoria: aproximadamente 250 milhões de pontos de dados e mais de dois terabytes de informações durante um fim de semana de corrida. Nesse cenário, a parceria tecnológica com a Dell Technologies tem papel importante na operação da equipe britânica.

Segundo Bunbury, a colaboração entre as empresas está próxima de completar dez anos e vai muito além do fornecimento de equipamentos.

Nossa parceria contribui para o desempenho nas corridas, tanto aqui na pista quanto dentro da fábrica. São os produtos, os serviços e a experiência dos nossos parceiros que ajudam a tornar tudo isso possível. É por isso que conquistamos campeonatos”
, ressaltou.

O executivo também fez questão de reconhecer que os resultados da McLaren são construídos por diferentes setores, não apenas pelos pilotos e engenheiros.

Quando vencemos campeonatos, é resultado do trabalho dos pilotos, engenheiros, mecânicos, da minha equipe e dos nossos parceiros”
, acrescentou.

Brasil tem lugar especial na história da McLaren

Além da tecnologia, Bunbury falou sobre a importância do Grande Prêmio de São Paulo para a McLaren. A equipe britânica possui uma relação histórica com o Brasil, especialmente pela trajetória de Ayrton Senna, um dos maiores nomes da história da escuderia.

O diretor revelou que conhecer São Paulo e visitar o autódromo onde Senna construiu parte de sua história era um dos objetivos pessoais desde que ingressou na organização.

São Paulo é uma cidade fantástica. A paixão que vemos entre os torcedores aqui é praticamente incomparável. Quando entrei para a equipe, vir a São Paulo e conhecer a pista onde Ayrton Senna correu estava na minha lista de desejos”
, revelou.

Bunbury também destacou a importância histórica do circuito brasileiro para a equipe, lembrando que a McLaren é a construtora com mais vitórias no local e que foi em Interlagos que Lewis Hamilton conquistou seu primeiro título mundial, em 2008.

É uma cidade fantástica. Temos uma história incrível aqui. Como fã, há cidades que você anseia mais visitar que outras, e esta é uma delas”
, afirmou.

A relação com o Brasil, portanto, representa mais do que uma etapa do calendário para a equipe. É um encontro com parte importante de sua própria trajetória na Fórmula 1.

McLaren já trabalha pensando nas próximas temporadas

Mesmo com a temporada em andamento, o planejamento da equipe não se limita aos resultados imediatos. Bunbury explicou que a McLaren trabalha simultaneamente para extrair o máximo desempenho do carro atual e desenvolver a base técnica para os próximos anos.

O executivo revelou que a equipe levou atualizações aerodinâmicas para o Grande Prêmio de São Paulo, com novidades nas partes dianteira e traseira do carro.

Estamos constantemente inovando e levando novas peças para o carro. Temos atualizações chegando à parte dianteira e traseira, projetadas para trazer desempenho imediato. Mas também precisamos pensar em como estabelecer a base de desempenho que queremos ter em 2027″
, explicou.

Segundo ele, esse equilíbrio entre desenvolvimento atual e planejamento futuro é um dos maiores desafios da Fórmula 1 moderna.

Bunbury lembrou ainda das dificuldades enfrentadas pela McLaren na transição para o novo regulamento técnico de 2026. Na ocasião, a equipe precisou disputar os campeonatos enquanto preparava um projeto para uma das maiores mudanças regulamentares da história da categoria.

Para o futuro, entretanto, o objetivo permanece bastante claro: continuar vencendo.

Na verdade, tudo se resume a vencer corridas. Parece extremamente simples, mas, no esporte, o objetivo é muito direto: você vence ou perde. A sensação de vencer é viciante”
, declarou.

O diretor encerrou destacando que a equipe pretende continuar evoluindo o carro atual, mas sem perder de vista o desenvolvimento das próximas temporadas.

Como podemos continuar extraindo o máximo desempenho do carro atual, reconhecendo que isso também oferece a base para continuar construindo o futuro? É nisso que estamos concentrados”
, concluiu.

FOTO: James Bunbury / Linkedin

Deixe um comentário