Fórmula 1 anuncia acordo de dez anos e prepara retorno à África com GP de Ruanda no início da próxima década

Categoria voltará ao continente africano pela primeira vez desde 1993, com um circuito de 6 km em Bugesera, próximo à capital Kigali, e projeto que prevê investimentos em turismo, infraestrutura e desenvolvimento do automobilismo local

A Fórmula 1 anunciou na manhã desta terça-feira (13) um acordo de dez anos para realizar o Grande Prêmio da África, apresentado pela Visit Rwanda, a partir do início da década de 2030. A prova será disputada em um circuito permanente especialmente construído em Bugesera, em Ruanda, marcando o retorno da principal categoria do automobilismo mundial ao continente africano após mais de três décadas de ausência.

O projeto prevê uma pista de aproximadamente 6 km, com 17 curvas e 197 metros de variação de altitude por volta. Além de receber a Fórmula 1, o complexo deverá funcionar durante todo o ano, com instalações para outras modalidades do automobilismo e grandes eventos, em uma iniciativa que busca impulsionar o turismo, atrair investimentos e ampliar as oportunidades para novos talentos africanos.

Após anos de negociações e estudos para encontrar um local adequado para receber a categoria, a organização confirmou um acordo de dez anos com Ruanda para a realização do Grande Prêmio da África a partir do início da década de 2030. A iniciativa representa um marco para o campeonato, que não disputa uma corrida no continente desde o Grande Prêmio da África do Sul de 1993.

A primeira edição da nova prova está condicionada à conclusão de um circuito permanente em Bugesera, região localizada a aproximadamente 40 quilômetros ao sul de Kigali, capital ruandesa. O traçado será desenvolvido para atender aos padrões de homologação Grau 1 da Federação Internacional de Automobilismo (FIA), requisito necessário para receber uma etapa da Fórmula 1.

Circuito será desenvolvido pela Tilke Engineering em parceria com a Wurz Design (Fórmula 1/Reprodução)

O projeto é liderado pelo Conselho de Desenvolvimento de Ruanda, em parceria com a Fórmula 1, o governo local e profissionais especializados na construção de circuitos. A proposta vai além da realização de um único evento esportivo: o país pretende estabelecer uma estrutura permanente para receber competições internacionais, conferências, shows e outras atividades ao longo do ano.

Um dos principais destaques do projeto está na concepção do circuito de Bugesera. A pista foi planejada para aproveitar as características naturais da região, conhecida por suas colinas e lagos, combinando mudanças de elevação com curvas desafiadoras e oportunidades de ultrapassagem.

O desenho prevê aproximadamente seis quilômetros de extensão, 17 curvas e sentido anti-horário. Ao longo de uma volta, os pilotos enfrentarão uma variação de altitude de 197 metros, característica que poderá tornar o traçado um dos mais exigentes do calendário em termos de pilotagem.

O desenvolvimento está sob responsabilidade de Carsten Tilke, da Tilke Engineering, e de Alex Wurz, ex-piloto de Fórmula 1 e responsável pela Wurz Design. A dupla trabalha para combinar as particularidades do terreno com as exigências técnicas da categoria, buscando oferecer uma pista competitiva tanto para a classificação quanto para as corridas.

Wurz destacou que a própria geografia de Ruanda foi determinante para a escolha do local.

Quando conhecemos o desenvolvimento em Bugesera e vimos as encostas e os lagos, disse que havia apenas um lugar onde esse circuito deveria ficar, porque a natureza já havia desenhado a topografia perfeita”
, explicou o ex-piloto, ao descrever a proposta de aproveitar duas colinas com um lago na parte inferior.

O austríaco também afirmou que o objetivo é criar uma experiência marcante para pilotos e espectadores. Segundo ele, o circuito terá características de uma montanha-russa, com subidas, descidas e mudanças de inclinação que deverão influenciar a condução dos carros.

A proximidade com o novo Aeroporto Internacional de Kigali, cuja inauguração está prevista para 2028, também é considerada estratégica para facilitar o acesso de equipes, profissionais e torcedores estrangeiros.

Outro fator técnico relevante é a altitude. Kigali está situada a aproximadamente 1.500 metros acima do nível do mar, o que pode afetar o desempenho dos carros devido à menor densidade do ar e à redução da eficiência aerodinâmica. A equipe responsável pelo projeto já considera essas particularidades nas simulações do traçado.

Além da pista principal, o complexo deverá contar com uma estrutura para o kartismo, centro de experiências de pilotagem e percursos off-road. A intenção é criar oportunidades para o desenvolvimento de pilotos desde as categorias de base e ampliar a participação da população local no automobilismo.

Retorno histórico após mais de 30 anos (Fórmula 1/Reprodução)

A última passagem da Fórmula 1 pela África aconteceu em 1993, quando o Grande Prêmio da África do Sul foi realizado em Kyalami. Desde então, o continente permaneceu fora do calendário, apesar das tentativas de viabilizar um retorno em diferentes países.

Historicamente, apenas duas nações africanas receberam provas válidas pelo Campeonato Mundial de Fórmula 1. Marrocos sediou o Grande Prêmio de Ain-Diab em 1958, enquanto a África do Sul recebeu a categoria em 23 ocasiões, principalmente no circuito de Kyalami.

A confirmação de Ruanda representa, portanto, uma nova etapa na expansão geográfica do campeonato. Com a inclusão da prova no início da próxima década, a Fórmula 1 passará a competir em todos os continentes habitados, ampliando sua presença global.

Para Stefano Domenicali, presidente e CEO da Fórmula 1, o acordo representa uma conquista importante para o esporte e para os milhões de torcedores africanos.

Hoje é um momento histórico para a Fórmula 1. Com Ruanda entrando no calendário a partir da próxima década, nosso esporte correrá em todos os continentes habitados, aproximando o Campeonato Mundial dos fãs de todo o mundo”
, afirmou Domenicali.

O dirigente também ressaltou que o retorno à África precisava acontecer com planejamento de longo prazo e uma estrutura capaz de sustentar o evento. Segundo ele, a parceria foi construída com a intenção de gerar benefícios que ultrapassem o fim de semana de corrida.

A África sempre fez parte do futuro da Fórmula 1 e, desde o início, estávamos determinados a retornar da maneira certa, com o parceiro certo, um compromisso de longo prazo e uma visão clara para criar um impacto significativo”
, acrescentou.

Ruanda aposta no esporte para impulsionar turismo e economia

A prova será disputada em um circuito permanente especialmente construído em Bugesera, em Ruanda (Fórmula 1/Reprodução)

A escolha de Ruanda está relacionada à estratégia do país de se consolidar como um destino internacional para grandes eventos esportivos e de entretenimento. Nos últimos anos, o território recebeu competições e encontros de destaque, incluindo o Congresso da FIFA de 2023, as Assembleias Gerais da FIA e a cerimônia de premiação da entidade em 2024, além do Campeonato Mundial de Ciclismo de Estrada de 2025, o primeiro realizado no continente africano.

O Grande Prêmio da África surge como mais um passo nessa estratégia, com a expectativa de atrair visitantes, estimular novos negócios e ampliar a visibilidade internacional do país.

O presidente ruandês, Paul Kagame, celebrou a confirmação do acordo e destacou o significado do retorno da categoria para o continente.

Hoje é um dia que pertence à África. Durante mais de três décadas, o principal campeonato de automobilismo do mundo competiu sem este continente, e isso muda com este acordo”
, declarou.

Kagame também enfatizou que o objetivo não é apenas receber uma corrida, mas criar oportunidades duradouras para a população, especialmente para os jovens interessados em ingressar no automobilismo.

Esta parceria de dez anos também é um investimento no futuro de Ruanda. O circuito em Bugesera, ao lado do novo aeroporto internacional, trará empregos, qualificação profissional, turismo e novos negócios para o nosso país e para a região durante décadas”
, afirmou.

O presidente acrescentou que a intenção é permitir que os jovens africanos tenham a oportunidade de acompanhar a Fórmula 1 presencialmente e de participar do esporte em diferentes funções, como engenheiros, técnicos, empreendedores e, futuramente, pilotos.

A proposta também pretende beneficiar outros países do continente. O nome Grande Prêmio da África foi escolhido justamente para reforçar o caráter regional do projeto, em vez de restringir a identidade da prova a Ruanda ou à capital Kigali.

Jean-Guy Afrika, diretor-executivo do Conselho de Desenvolvimento de Ruanda, explicou que a ambição é transformar a corrida em um ponto de partida para uma presença mais ampla do automobilismo no continente.

Queremos que seja maior do que apenas Ruanda. Queremos que este seja o momento em que o esporte voltou à África e nunca mais foi embora”
, afirmou.

A Federação Internacional de Automobilismo também considera o acordo um passo importante para ampliar o alcance da modalidade. A entidade pretende trabalhar em conjunto com a Fórmula 1 e os parceiros locais para garantir que o novo circuito cumpra os padrões internacionais de segurança e infraestrutura.

Para Mohammed Ben Sulayem, presidente da FIA, o retorno da categoria poderá contribuir para a formação de novos profissionais e para a criação de oportunidades em diferentes níveis do automobilismo.

O retorno do Campeonato Mundial de Fórmula 1 da FIA à África é um momento histórico para o nosso esporte e um passo importante no crescimento global contínuo do automobilismo”
, declarou.

Ben Sulayem ainda destacou que o projeto deve servir de inspiração para as próximas gerações e ampliar o acesso à modalidade em comunidades que historicamente tiveram menos oportunidades de participação.

A expectativa é que a construção do circuito, a estrutura de kartismo e as iniciativas relacionadas ao evento contribuam para desenvolver uma base local de profissionais, desde pilotos até engenheiros, mecânicos e técnicos especializados.

Mais de 100 milhões de fãs na África

O retorno ao continente também representa uma oportunidade comercial para a Fórmula 1. De acordo com os números divulgados pela própria categoria, mais de 100 milhões de pessoas na África já acompanham o campeonato, enquanto quase 60% dos fãs em mercados importantes da África Subsaariana têm menos de 35 anos.

Esse perfil reforça o potencial de crescimento da modalidade em uma região com uma população jovem e um público que poderá ter acesso presencial à categoria pela primeira vez em mais de três décadas.

A realização do Grande Prêmio da África poderá aproximar esses torcedores das equipes e dos pilotos, além de ampliar as possibilidades de patrocínio, turismo e negócios relacionados ao esporte.

O impacto econômico dependerá da conclusão das obras, da capacidade de atrair visitantes e da execução dos planos de desenvolvimento. Ainda assim, o acordo de dez anos oferece ao país uma perspectiva de planejamento de longo prazo, com investimentos que poderão beneficiar outros setores da economia.

Estreia ainda não tem data definida

Apesar da confirmação do acordo, a Fórmula 1 ainda não divulgou a data exata da primeira edição do Grande Prêmio da África. A previsão é que a prova entre no calendário no início da década de 2030, após a conclusão do circuito e o cumprimento das exigências técnicas necessárias.

Também deverão ser anunciados posteriormente novos detalhes sobre o cronograma das obras, a configuração definitiva da pista e a programação do fim de semana de corrida.

FOTO: Fórmula 1/Reprodução

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