Scuderia Bandeiras deixa a Stock Car após disputas judicial com a categoria

Equipe comandada por Átila Abreu encerra participação na categoria com efeito imediato após série de disputas envolvendo questões contratuais, técnicas, esportivas e tributárias; Vicar afirma que seguirá cumprindo contratos e regulamentos

A Scuderia Bandeiras anunciou nesta quarta-feira (1º) sua saída imediata da Stock Car, encerrando pouco mais de um ano de participação na principal categoria do automobilismo brasileiro. A decisão ocorre após uma sequência de disputas judiciais e esportivas envolvendo a equipe e a Vicar, promotora da Stock Car, além de divergências sobre cobranças relacionadas ao novo conjunto mecânico da categoria, sanções decorrentes do caso das pinças de freio e questionamentos sobre procedimentos contratuais, tributários e de governança.

Enquanto a equipe afirma que a permanência na categoria passou a representar insegurança jurídica para patrocinadores, investidores e colaboradores, a Vicar sustenta que todas as medidas adotadas estão previstas em contrato, foram tomadas dentro dos regulamentos e têm como objetivo preservar a segurança e a integridade esportiva da competição. As demais equipes, por meio de manifestação conjunta e da Associação Nacional das Equipes de Stock Car (ANESC), demonstraram apoio ao cumprimento dos regulamentos e indicaram que buscam resolver as divergências por meio de diálogo com a promotora.

A decisão foi comunicada pela Scuderia Bandeiras após uma série de acontecimentos que se intensificaram ao longo da temporada 2026. Criada para disputar a Stock Car em 2025, a equipe reuniu nomes como Átila Abreu (Dono da equipe e piloto), Christian Fittipaldi (chefe de equipe da Scuderia Bandeiras), Rubens Barrichello, Nelson Piquet Jr. e Rafael Suzuki e informou ter investido mais de R$ 20 milhões no projeto.

Segundo comunicado divulgado pela equipe, a rescisão do contrato com a Vicar ocorreu por justa causa, fundamentada, segundo a Bandeiras, no descumprimento de obrigações contratuais, em decisões judiciais que teriam deixado de ser observadas integralmente e em dúvidas relacionadas a procedimentos tributários envolvendo pneus, além de outros pontos que, na avaliação da equipe, comprometeram a segurança jurídica da operação.

Átila Abreu afirmou que a decisão não está relacionada ao desempenho esportivo, mas ao entendimento de que a continuidade poderia representar riscos para patrocinadores, parceiros e colaboradores da equipe.

Disputa sobre o Kit V8 foi o primeiro grande impasse

Um dos principais conflitos entre as partes envolve a implantação do novo motor V8 utilizado pela Stock Car em 2026 (Divulgação/Vicar)

A Scuderia Bandeiras ingressou na Justiça questionando a cobrança aproximada de R$ 200 mil por carro referente ao chamado “Kit V8”, conjunto de componentes necessários para adaptação dos carros à nova motorização.

Na ação, a equipe sustentou que as alterações representam uma modificação estrutural do projeto original dos carros e, por isso, os custos deveriam ser assumidos pela promotora da categoria, conforme interpretação do contrato firmado entre as partes.

A Justiça de São Paulo concedeu liminar favorável à equipe ao entender, em análise preliminar, que havia elementos indicando que as modificações poderiam caracterizar um “upgrade”, e não um simples “update” técnico. Com isso, suspendeu temporariamente a cobrança e proibiu a categoria de aplicar sanções relacionadas ao não pagamento enquanto o mérito da ação não é julgado.

A Vicar, por sua vez, afirma que a adoção do motor V8 representa uma evolução técnica prevista contratualmente e que os custos referentes às atualizações do carro são de responsabilidade das equipes, conforme ocorre nas categorias profissionais. A promotora também afirma que as mudanças foram aprovadas por um comitê de segurança composto, entre outros integrantes, pela Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA).

Caso das pinças de freio ampliou o conflito

Outro ponto central da disputa envolve a desclassificação dos carros de Rubens Barrichello e Nelson Piquet Jr. na etapa de Interlagos (Reprodução/Scuderia Bandeiras)

Após vistoria técnica realizada pela CBA, a equipe foi considerada em desacordo com o regulamento em razão das pinças de freio utilizadas nos carros. Além da desclassificação, foram aplicadas sanções esportivas e financeiras.

A Scuderia Bandeiras recorreu ao Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), alegando irregularidades no processo de fiscalização e na análise técnica. O recurso, porém, foi rejeitado por unanimidade, mantendo as penalidades impostas pelos comissários desportivos.

Paralelamente ao julgamento esportivo, a equipe ingressou na Justiça Comum contra medidas adotadas pela Vicar que resultariam na perda de benefícios comerciais e financeiros previstos contratualmente, com impacto estimado em mais de R$ 2,3 milhões.

Em decisão liminar, a Justiça suspendeu essas medidas ao entender que existiam indícios de possível descumprimento do procedimento contratual previsto para aplicação das penalidades, especialmente em relação ao contraditório e à ampla defesa.

A Vicar afirma que tais medidas não constituem multa, mas suspensão de benefícios contratuais prevista nos acordos firmados com as equipes. Segundo a promotora, a possibilidade está prevista para situações que possam comprometer a segurança, os investimentos ou a imagem da categoria.

Questões tributárias e governança passaram a integrar a disputa

Na nota divulgada para comunicar sua saída da Stock Car, a Scuderia Bandeiras também apresentou questionamentos relacionados aos procedimentos tributários envolvendo a importação, circulação e comercialização dos pneus utilizados na categoria.

Segundo a equipe, análises realizadas por consultores independentes apontaram necessidade de esclarecimentos formais sobre essas operações. A Bandeiras afirma que notificações extrajudiciais foram encaminhadas à Vicar e à Audace, mas que as respostas recebidas não eliminaram as dúvidas levantadas.

Além das questões tributárias, a equipe também citou preocupações relacionadas ao modelo de governança da categoria, cobranças extraordinárias, fornecimento de componentes técnicos, bloqueio de acesso ao sistema Stock Manager, segurança dos novos carros e falhas mecânicas registradas desde a introdução do novo regulamento técnico em 2025.

Demais equipes defendem cumprimento dos regulamentos

Enquanto a disputa entre Bandeiras e Vicar se intensificava, as demais equipes da Stock Car divulgaram um comunicado conjunto manifestando apoio às medidas voltadas ao cumprimento dos regulamentos técnico e desportivo da categoria.

No texto, as equipes afirmam que a Stock Car construiu sua história com base no respeito às regras e manifestam repúdio a qualquer iniciativa que busque obter vantagem competitiva por meio do descumprimento do regulamento. O comunicado também agradece à CBA e à Vicar pela atuação na defesa desses princípios.

Em paralelo, o presidente da Associação Nacional das Equipes de Stock Car (ANESC), William Lube, declarou que as demais equipes não pretendem seguir o caminho adotado pela Scuderia Bandeiras e informou que a entidade busca um alinhamento com a Audace para tratar das questões relacionadas ao Kit V8 por meio de negociação.

Vicar afirma que calendário segue inalterado

Após a confirmação da saída da Scuderia Bandeiras, a Vicar divulgou nota oficial informando que recebeu a comunicação da equipe e destacou que a decisão ocorreu após o julgamento do STJD que manteve as penalidades esportivas relacionadas às irregularidades técnicas identificadas nos carros.

A promotora reiterou que todo o processo foi conduzido conforme os regulamentos da categoria e pelas instâncias competentes do automobilismo, respeitando o direito de defesa.

A empresa também afirmou que a segurança permanece como princípio central da competição e declarou que qualquer situação que possa comprometer a integridade de pilotos, equipes, profissionais ou público continuará sendo tratada com rigor.

Por fim, a Vicar informou que a saída da Scuderia Bandeiras não altera o calendário da temporada 2026, nem os compromissos assumidos com patrocinadores e parceiros da Stock Car.

Com a saída imediata da Scuderia Bandeiras, Rubens Barrichello, Nelson Piquet Jr., Rafael Suzuki e Átila Abreu deixam de integrar o grid da Stock Car enquanto não há definição sobre o futuro esportivo da equipe e de seus pilotos.

FOTO: Scuderia Bandeiras/Reprodução

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