Novo Stock Car evolui, “ruge” mais alto e fica ainda mais seguro

Além das novidades mecânicas e eletrônicas, carro da principal categoria do País recebeu evoluções propostas por uma comissão de segurança

Principal novidade do automobilismo brasileiro no ano passado, o SNG01 começou a temporada 2026 com diversas novidades técnicas que visam aprimorar aspectos como segurança, confiabilidade e competitividade – qualidades nas quais os novos Stock Cars são referência no esporte. Mas, a exemplo do que acontece a cada temporada nas principais categorias do mundo, a BRB Stock Car Pro Series realizou estudos e testes que resultaram em evoluções importantes já implementadas em todos os 34 carros da competição. 

Para 2026, foram realizadas mudanças fundamentais. Algumas delas envolveram uma iniciativa inédita deste esporte no Brasil: a criação de uma comissão de segurança composta por especialistas em automobilismo e em tecnologia. O grupo é formado por José Avalone Neto (projetista do chassi com passagem pela Fórmula 1), Dino Altmann (ex-presidente da comissão médica da FIA e chefe da equipe médica da Stock Car), Enzo Bortoleto (CEO da Audacetech, fabricante do carro), João Bosco Reis da Silva (diretor de sustentabilidade e relações institucionais da ArcelorMittal) e Fabio Greco (presidente do Conselho Técnico Desportivo Nacional da Confederação Brasileira de Automobilismo). O grupo ouviu também pilotos e equipes da Stock Car. 
 
Chassi integra sistema de segurança – Além de receber a instalação de todos os sistemas do carro, como motor, câmbio e suspensão, o chassi do SNG01 é um elemento constitutivo do sistema de segurança que protege o piloto. “Os tubos feitos em aço avançado de alta resistência, o DP980R, cumprem um papel central na segurança do carro: formar uma safety cage (gaiola de segurança) capaz de evitar ao máximo intrusões em caso de impacto, preservando assim espaço do piloto em cenários de alta exigência”, adianta Jetson Ferreira, pesquisador da ArcelorMittal envolvido no processo de desenvolvimento da solução em aço para os veículos da Stock Car.  

“Essa solução tubular em aço, para a geometria da safety cage proposta pela Audacetech, permite maior controle do comportamento estrutural, ao combinar rigidez e resistência mecânica”, completa o pesquisador. 
 
Reforços e absorção de energia – Já aprovado em 2025 nos testes do IPT realizados seguindo as normas de segurança da FIA, o chassi, que é a principal estrutura do carro, recebeu para 2026 novos reforços em pontos-chave, visando ampliar sua resistência a impactos. Paralelamente, outra especificação de aço da ArcelorMittal foi utilizada em absorvedores de energia especialmente desenvolvidos pela empresa para a Stock Car.  

“Os absorvedores de energia localizados na região frontal e traseira do carro são compostos de tubos feitos a partir do aço DP780. Seu conceito principal é aproveitar a deformação plástica programada dos componentes de forma a atenuar a desaceleração em eventual colisão”, detalha Ferreira.  
 
Tensylon e Kevlar – Tensylon® fornecido pela DuPont é utilizado como matéria-prima na fabricação de componentes aplicados  em regiões do SNG01 consideradas mais suscetíveis à intrusão de objetos contundentes — como em colisões laterais envolvendo outro veículo contra a porta do piloto, uma das situações mais críticas deste esporte. 

Nessa aplicação, o Tensylon® é utilizado de forma combinada com o Kevlar®, outro material da DuPont com ampla utilização em aplicações técnicas como a blindagem de veículos. A combinação desses dois materiais pode contribuir para a formação de uma barreira estrutural com capacidade de retenção de objetos e dissipação de energia em situações de impacto. 

“Tanto o Tensylon® quanto o Kevlar® apresentam alta resistência mecânica e podem contribuir para a retenção de objetos e para a dissipação da energia gerada em impactos. O Kevlar®, além disso, se destaca por sua elevada resistência ao calor, característica relevante em cenários extremos. Quando utilizados de forma combinada e adequadamente integrados ao projeto, esses materiais auxiliam na mitigação dos efeitos iniciais de um impacto e na dissipação de energia ao longo da estrutura”, explica Allan Gorham, líder de tecnologia de Kevlar® e Tensylon®. 
 
Barreira térmica – O habitáculo do piloto agora é protegido pelo isolante térmico Pyrogel, desenvolvido pela especialista norte-americana Aspen Aerogels, que também fornece o produto para a NASA. O material isola o escapamento do cockpit e também separa o habitáculo do cofre do motor – local gerador de calor e também o mais propenso a possíveis incêndios.  
“O Pyrogel é um isolante avançado empregado na forma de manta flexível que pode suportar temperaturas de até 650 graus. É ideal para reduzir temperaturas quando se tem espaços reduzidos, como é o caso do habitáculo de um carro de corridas”, detalha o engenheiro José Avalone Neto. 
 
Mudanças sob o capô – Outra alteração importante é a adoção do motor V8 naturalmente aspirado de 6,2 litros e potência máxima de 600cv, que também passou a contar com a central de gerenciamento eletrônico fornecida pela especialista australiana MoTeC e escapamentos projetados e produzidos pela ArcelorMittal, por meio de sua unidade Tuper, situada em Santa Catarina.  
 
Além de mais potência e torque, os motores V8 trouxeram de volta o icônico rugido gutural dos Stock Cars – uma marca da categoria que empolga os fãs pelo “feeling” intuitivo de alta rotação que o som transmite ao público nas arquibancadas. Essas evoluções beneficiaram o SNG01 de diversas formas.
  
“Em termos de engenharia de competição, tivemos vários benefícios”, adianta o projetista José Avalone Neto. “O novo motor e a eletrônica trouxeram mais confiabilidade pela faixa de potência e de torque mais amplas que agora podemos utilizar. Os pilotos passaram a ter respostas imediatas sem o turbo lag (lapso de tempo entre o acionamento do acelerador e a entrega de torque gerado pela ação da turbina) típico de um motor turbo, algo crucial em saída de curva, por exemplo”, detalha. 
 
Segundo o engenheiro, agora a entrega de potência também é mais linear e previsível. “Isso auxilia o piloto no uso do equipamento em situações críticas, como ultrapassagens ou defesa de posição. Outro ganho vem para as equipes: mais robustos para suportar os altos regimes de rotação ao longo de toda uma corrida, os V8 são mais confiáveis e duráveis por conterem menos componentes complexos e críticos, como turbinas, wastegates ou intercoolers”, explica o projetista. 

FOTO: Marcelo Machado de Melo/ Grupo Veloci

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