Após análises das primeiras corridas do ano, categoria redefine parâmetros técnicos, revisa procedimentos de largada e promove mudanças visando equilíbrio, segurança e melhor espetáculo
A Federação Internacional de Automobilismo (FIA), em conjunto com chefes de equipe da Fórmula 1, fabricantes de unidades de potência, a Formula One Management (FOM) e representantes técnicos e pilotos, aprovou nesta segunda-feira (20) um amplo pacote de mudanças no regulamento da temporada 2026. As decisões foram tomadas durante uma reunião realizada de forma online e representam um movimento coordenado da categoria para ajustar pontos críticos identificados nas primeiras etapas do campeonato.
As alterações, que ainda serão submetidas à votação final no Conselho Mundial do Esporte a Motor, têm implementação prevista já a partir do Grande Prêmio de Miami, nos Estados Unidos, embora algumas medidas passem inicialmente por fase de testes antes de adoção definitiva. O processo reflete a dinâmica de adaptação da Fórmula 1 diante de um novo ciclo técnico, especialmente com as mudanças profundas nas unidades de potência introduzidas para 2026.
O pacote de revisões foi construído com base em dados coletados nas três primeiras corridas da temporada (Austrália, China e Japão) após semanas de discussões entre as partes envolvidas. O consenso alcançado indica uma convergência rara entre interesses esportivos, técnicos e comerciais, em um momento considerado decisivo para a estabilidade do regulamento.
No centro das mudanças está o gerenciamento de energia, um dos pontos mais sensíveis da nova geração de motores híbridos. A FIA decidiu reduzir o limite máximo de recarga de energia de 8MJ para 7MJ. A medida busca conter a captação excessiva de energia e incentivar um estilo de pilotagem mais consistente, com menor dependência de fases intensas de recuperação energética.
Essa alteração impacta diretamente o chamado “superclipping”, cujo tempo máximo de utilização por volta deve cair para algo entre dois e quatro segundos. Na prática, isso tende a reduzir variações abruptas de desempenho ao longo da volta, tornando o comportamento dos carros mais previsível e equilibrado.
Por outro lado, a potência máxima do sistema foi aumentada de 250 kW para 350 kW. A decisão tem como objetivo compensar a redução na recarga, permitindo que os pilotos utilizem a energia de forma mais eficiente e com menor necessidade de gerenciamento constante. Segundo a FIA, a mudança também contribui para diminuir a carga de trabalho dos pilotos, um ponto frequentemente levantado desde a introdução do novo regulamento.
Outro ajuste relevante é a ampliação do número de etapas em que poderão ser aplicados limites alternativos de energia. O número de corridas com essa flexibilidade passou de oito para 12, oferecendo às equipes maior margem para adaptar estratégias às características específicas de cada circuito, como longas retas ou trechos mais técnicos.
Durante as corridas, o uso dos sistemas híbridos também foi refinado. A potência máxima do “Boost” foi limitada a 150 kW, ou ao nível de potência atual do carro no momento da ativação, caso seja superior. A intenção é evitar ganhos repentinos de desempenho que possam comprometer a competitividade ou gerar situações artificiais de ultrapassagem.
Já o MGU-K, componente central do sistema híbrido, manterá sua potência máxima de 350 kW em zonas-chave de aceleração, como saídas de curvas e áreas de ultrapassagem. No restante da volta, porém, esse limite será reduzido para 250 kW, criando uma distribuição mais equilibrada da energia e reforçando o papel estratégico do piloto na utilização dos recursos disponíveis.
As largadas, tradicionalmente um dos momentos mais críticos de uma corrida, também receberam atenção especial. A FIA introduziu um sistema de detecção de baixa aceleração, capaz de identificar carros que apresentem desempenho anormalmente baixo logo após a liberação da embreagem. Nesses casos, o sistema acionará automaticamente o MGU-K para garantir um nível mínimo de aceleração.
A medida busca reduzir riscos de acidentes sem oferecer qualquer vantagem competitiva, funcionando como um mecanismo de segurança ativa. Complementando essa iniciativa, será implementado um sistema de aviso visual com luzes intermitentes, traseiras e laterais, nos carros afetados, alertando os pilotos que vêm atrás sobre a situação.
Ainda no contexto das largadas, a FIA corrigiu uma inconsistência identificada no sistema de energia, determinando que o contador seja reiniciado já no início da volta de formação. A mudança elimina discrepâncias que poderiam impactar o desempenho dos carros no momento da largada.
As condições de chuva também motivaram ajustes importantes, após relatos dos pilotos sobre dificuldades de aderência inicial com pneus intermediários, a FIA decidiu aumentar a temperatura das mantas térmicas, melhorando o desempenho logo nas primeiras voltas em pista molhada.
Além disso, a ativação máxima do ERS (Sistema de Recuperação de Energia) será reduzida em condições de baixa aderência, limitando o torque entregue às rodas e facilitando o controle dos carros. A entidade também simplificou os sistemas de iluminação traseira, adotando sinais mais claros e consistentes para melhorar a visibilidade e o tempo de reação dos pilotos em situações adversas.
Apesar da aprovação técnica e política do pacote, as mudanças ainda dependem da validação formal do Conselho Mundial do Esporte a Motor. Algumas delas, especialmente as relacionadas aos procedimentos de largada, serão submetidas a testes antes de sua implementação definitiva, o que indica uma abordagem cautelosa por parte da FIA.
O Grande Prêmio de Miami surge, assim, como o primeiro palco para a aplicação prática dessas revisões. A etapa norte-americana funcionará como um laboratório em tempo real, permitindo à categoria avaliar o impacto das mudanças e realizar eventuais ajustes adicionais.
FOTO: Rudy Carezzevoli/Getty Images // Getty Images / Red Bull Content Pool)
